Entrevista a Manoel Fernandes Neto
Luiz Henrique Ferreira está à frente da Galileu Tecnologia, empresa que fundou e que completa 20 anos em 2025. A Galileu é representante no Brasil de diversas marcas de equipamentos e tecnologias voltadas à indústria têxtil, como Kuris (corte/enfesto), Assyst Style3D (CAD e 3D), Inkcups (tagless/tampografia), Barudan (bordado), Mimaki (impressão digital) e Suntech (relaxadora de tecidos).
Nesta entrevista, Henrique fala especialmente sobre o Style3D, um software 3D revolucionário que está transformando a cadeia têxtil ao agilizar processos, reduzir custos e ampliar a criatividade no desenvolvimento de produtos.
“Estamos mudando o mundo da criação e isso precisa estar presente, em primeiro lugar, nas universidades. Já fizemos várias parcerias e temos várias universidades utilizando o Style3D. Esse trabalho é árduo, porque as universidades são públicas em sua maioria e possuem um sistema bem burocrático”, explica Henrique.
Em conversa exclusiva para o projeto Vida de Links, na estreia da seção Contextos & Vozes, ele aborda temas como avanços tecnológicos, mentalidade inovadora, o papel da inteligência artificial na moda, capacitação de profissionais e os novos rumos da indústria têxtil.
E para quem ainda não acredita nessa revolução, ele é direto: “Corra, você está atrasado!”
A seguir, leia a entrevista na íntegra.

A Galileu é reconhecida por conectar tecnologia e indústria há mais de duas décadas. Como surgiu a decisão de investir em soluções de moda digital e trazer o Style3D para o Brasil?
A Style3D foi uma grata surpresa. Já sabíamos que era o melhor 3D do mercado de moda mundial; mas, na ocasião, nós distribuíamos para outra empresa, a alemã Assyst, que tinha outro sistema 3D.
Foi quando as duas empresas se fundiram e a Assyst então nos convidou para dar continuidade na marca e lançar o Style3D no Brasil através da Galileu.
Nós já vínhamos focados na tecnologia 3D há alguns anos. Sabíamos que era o futuro, que iria acontecer e que não demoraria para começar a ser usado. Mas não tínhamos, infelizmente, um produto que nos convencesse.
Hoje temos essa joia nas mãos, que é o Style3D, e estamos felizes por poder apresentá-lo aos nossos clientes no Brasil.
Na prática, o que muda quando uma confecção adota o 3D na sua produção de moda? Como essa tecnologia transforma o dia a dia das equipes de modelagem, criação e desenvolvimento de produto?
Em um processo normal, uma confecção tem vários processos no desenvolvimento. Imagine que você tem que primeiro fazer pesquisa, muitas vezes no exterior, aí você vai criar um conceito e a peça na sua cabeça, depois você faz um desenho (sketch), para que então seja pré-aprovado e possa ir para a modelagem.
A modelagem cria o modelo (partes da peça), imprime para fazer a “moulage” (testar a peça em papel em um manequim) e fazer as correções necessárias. Depois de aprovado, você então tem que cortar e costurar uma peça física, que chamamos de protótipo. Esse protótipo é normalmente alterado algumas vezes (em média 3 ou 4 vezes), ou seja, cortado e costurado de novo, para então virar uma amostra e ir para o cliente, que normalmente irá mudá-la novamente, para então virar uma peça aprovada. Importante: nem sempre essas amostras são feitas no tecido correto (que ainda não foi comprado), na cor correta e nunca com uma estampa.
Depois vem a parte da fotografia, estúdios, imagens para arte impressa, catálogos e redes sociais. Buscar modelos que se adaptem à sua coleção a cada 3 meses. Imagine o trabalho… e esse processo pode levar meses!
Agora imagine se você tem um sistema onde você pode usar a I.A. e dizer pra ele o que você está imaginando e ele te traz várias ideias. Nesse sistema você tem um “marketplace” onde você consulta acessórios, avatares, tecidos etc., que te ajudam a criar a sua peça. Você pode também digitalizar as propriedades do tecido.
E aí você envia sua peça para a modelagem, que cria as partes da peça e veste num manequim virtual, faz todas as aprovações na tela, testa todas as cores, acessórios, tecidos, estampas, bordados, e depois de todas as aprovações, você envia um QR Code para o seu cliente de uma imagem em 3D, que pode ser um vídeo, onde ele vai ver o caimento, as cores, tudo!
Você pode gerar essas imagens para seu catálogo, para a sua rede social e criar seus modelos digitais (avatares). Tudo isso em poucas horas ou poucos dias. Isso é o Style3D, e é assim que ele transforma o dia a dia das equipes de criação e modelagem!
Vejo que o uso do 3D exige uma nova mentalidade no setor, por causa da quebra de paradigma. Como a Galileu tem trabalhado para capacitar profissionais e instituições de ensino nesse novo cenário digital?

Temos total consciência disso, e o primeiro trabalho que fizemos foi buscar as universidades, para que formem essa mão de obra e também possam ajudar na formação desse novo conceito.
Estamos mudando o mundo da criação e isso precisa estar presente, em primeiro lugar, nas universidades. Já fizemos várias parcerias e temos várias universidades utilizando o Style3D. Esse trabalho é árduo, porque as universidades são públicas em sua maioria e possuem um sistema bem burocrático.
Além disso, fazemos tudo com preços muito especiais, simbólicos na verdade, com treinamento e suporte gratuito. Mas é preciso fazer. Ensino, para nós, é prioridade, e temos consciência de que temos que trabalhar em conjunto com as escolas.
O Style3D é utilizado nos maiores centros da moda do mundo. O que representa para o Brasil e para a Galileu fazer parte dessa rede global de inovação? Fale sobre o Centro 3D Galileu.
Para nós é um desafio que gostamos de ter. A Galileu não tem o nome Tecnologia em nossa razão social por acaso. Sempre distribuímos tecnologia de ponta e somos conhecidos por isso.
O Style3D e a Assyst vêm de encontro ao que defendemos, ao DNA de nossa empresa. Estar no vértice da tecnologia em 3D nos traz muita responsabilidade, mas também nos dá prazer em poder falar sobre isso. Nos preparamos para isso.
Assim que assumimos a Style3D, nós entendemos que precisávamos criar um Centro 3D em Blumenau, em nossa matriz. É o primeiro Centro 3D da América Latina e, além dos nossos clientes, ele está disponível para alunos e universidades, a fim de que possam interagir na prática o que aprendem na escola.
Nele nós temos, por exemplo, a digitalização do tecido e mostramos como o módulo Fabric do Style3D pode digitalizar o tecido de forma automática, colhendo milhares de informações de forma que o resultado do tecido na tela seja tão bom quanto na sua mão.

Até então isso somente poderia ser feito na Europa ou Ásia, e hoje pode ser feito na Galileu. Ali, também promovemos workshops, estudos, e utilizamos as mais novas tecnologias apresentadas pela Style3D.
O 3D também está muito ligado à sustentabilidade, reduzindo amostras físicas e desperdício de tecidos. Na sua visão, a criação digital é uma resposta concreta aos desafios ambientais da moda?
Sem dúvida que sim. A indústria têxtil é uma das maiores poluentes no mundo, seja pelo tratamento químico, seja pelos resíduos deixados no ambiente, ou até pelo conceito fast fashion descartável.
Ao usar um sistema digital como o Style3D, você imediatamente deixa de usar vários processos físicos e irá, por exemplo, economizar tecidos, água, produtos químicos, reduzir os resíduos, além de papel, passagens aéreas e o mais importante, tempo de pessoas que são especialistas no negócio, mas usam apenas 30% no processo criativo.
Como você enxerga o futuro da indústria têxtil nos próximos anos com o avanço da inteligência artificial, automação e integração digital?
A I.A. já é realidade em vários setores do têxtil e da confecção. Não apenas na criação. Saber usá-la ainda é um desafio, mas acredito que muito em breve todos já estarão sabendo como fazer.
Claro, quem entra na frente, colhe sempre os benefícios de ser o primeiro, mas também comete muitos erros e aprende com eles. No mercado têxtil, know-how é tudo e errar faz parte de se obter esse know-how desejado. A I.A. irá trazer coisas incríveis ainda para a humanidade. É assustador e curioso ao mesmo tempo.

Os próximos 2 anos nos dirão o que fazer com ela e a próxima década nos dirá se estávamos certos. Será uma transformação com uma velocidade nunca antes vista. Tivemos 10 anos para nos adaptarmos ao computador, mais 10 para a internet (ainda estamos nos adaptando a ela). Não teremos esse tempo para a I.A., então temos que correr.
Já nos sistemas 3D para criação, não se trata mais de você decidir se vai entrar, e sim, quando irá entrar com o Style3D. É muito mais rápido, muito mais eficiente, muito mais barato, muito mais ágil, dá muito mais flexibilidade e muito mais possibilidades. Então por que não usar? E aqui vai sempre uma dica importante: não espere! Um profissional de 3D pode levar até 1 ano para ser treinado e estar pronto para fazer o que você precisa, então comece já a utilizar a ferramenta.
Quais conexões inspiram você pessoalmente ou profissionalmente na sua “vida de links”?
As conexões que me inspiram são aquelas que trazem conteúdo, sejam digitais ou presenciais, pessoais ou profissionais. Hoje temos cada vez menos tempo para tomar decisões e cada vez mais trabalho, por conta de toda essa transformação.
Saber selecionar o que realmente deve ser absorvido e levado adiante não é uma tarefa fácil, mas ainda é o melhor caminho. Tem muito conteúdo bom na internet — e isso é ótimo! Mas também tem muito lixo. O lixo digital, muitas vezes, é invisível. Por isso, é importante estarmos atentos a onde escolhemos alocar nosso precioso tempo.
O que você diria hoje para empresários e profissionais da moda que ainda não acreditam que o 3D é um caminho sem volta?
Corra, você está atrasado!
Para conhecer mais sobre Galileu Tecnologia: LINK
Para conhecer mais sobre Assyst Style3D: LINK

