Entrevista Cris Cirne, produtora da Vida de Links
Foto de capa: Felipe Pelisson
Ana Clara Garmendia construiu uma trajetória singular entre moda, pensamento estético e literatura. Jornalista, correspondente em Paris da Elle Brasil e observadora atenta das transformações culturais, ela vive na Cidade Luz há mais de duas décadas. Nesse período desenvolveu um olhar crítico sobre a moda, compreendendo-a como expressão social, política e histórica.
Ao longo de sua carreira, Ana Garmendia acompanhou momentos marcantes do universo da moda internacional, desde o surgimento do street style como fenômeno cultural até grandes desfiles que aproximam arte e criação. Seu percurso revela uma busca constante por profundidade, recusando a superficialidade muitas vezes associada ao setor.
Nesta conversa com a Revista Vida de Links, ela compartilha reflexões sobre a evolução da moda, o papel das novas gerações, os desafios da comunicação na área e sua própria experiência transitando entre jornalismo, escrita e observação crítica do mundo contemporâneo.
Leia a entrevista completa a seguir:
A moda costuma ser vista, muitas vezes, somente como tendência “descartável” e “novidades” constantes. Em que momento você percebeu que construir uma trajetória sólida na área exigia ir na direção oposta: aprofundar, desacelerar e fazer escolhas mais conscientes?
Ana Clara Garmendia: Descobri que, para construir uma carreira sólida, eu precisava me aprofundar na história da moda. Saber exatamente como tudo havia ocorrido nesse universo; porque, embora a moda tenha uma certa rapidez, ela tem um embasamento histórico que é o que a sustenta. Se a gente for pensar na moda apenas como produto, ela é efêmera, dura de uma estação para outra. No entanto, ao olhar para a história, a gente vê que ela possui uma relação maior com a sociedade e com todos os acontecimentos políticos e econômicos. Enfim, quando eu percebi isso, vi que eu poderia falar sobre alguma coisa mais interessante do que a cor da estação ou a próxima tendência.

Acho mesmo que são coisas independentes: você gostar de moda e ter um caminho em que você a enxerga como um fator importante dentro da sociedade; o outro é você trabalhar com a moda; hoje, por exemplo, eu me vejo como uma pessoa que observa mais do que trabalha. Trabalho menos com a moda, mas continuo sendo uma observadora e vendo como ela se comporta, porque da maneira como ela se comporta é a maneira como a sociedade está evoluindo ou involuindo.
O que, hoje, você considera mais transformador na moda?
Ana Clara Garmendia: Eu acho que o mais transformador na moda hoje são as pessoas que estão a usando; é o consumidor que muda: quer uma moda mais sustentável, que exige; é essa juventude presente que não quer usar pele, não quer usar plástico; quer usar roupa de segunda mão.
Eu acho que o consumidor é o protagonista, é ele que dirige, é ele que transforma. Essa juventude, essas novas gerações, sempre vêm transformando. Eu sempre digo que a moda tem que ter muita gente jovem trabalhando, embora seja importante a nossa experiência; mas o jovem é quem renova o olhar sobre o que realmente é importante e necessário entre o vestir e o respeitar a natureza; porque a gente sabe que a indústria da moda destruiu muita coisa.
Ao longo da sua trajetória, quais momentos do mundo da moda marcaram você como profissional?
Ana Clara Garmendia: O momento que mais me marcou foi quando eu comecei a escrever no site, no meu blog, quando eu cheguei aqui em Paris. Na ocasião, comecei a mostrar a moda de rua. As pessoas diziam que era completamente desinteressante e isso era uma coisa que sempre me interessou muito. E eu fiz. Fui contra a corrente e realmente foi um dos momentos mais importantes do começo do século 21, o street style, e depois os grandes desfiles, como os 60 anos da Christian Dior, que eu fui e assisti no Palácio de Versalhes, quando ainda era com John Galliano, com grandes modelos desfilando. Era uma apresentação unindo arte e moda; mostrando a diferença entre arte e moda; ou seja, a inspiração na arte dando uma origem de moda para uma roupa, fazendo vestidos inspirados em obras de arte, mas eu podendo ver a diferença do que é moda e o que é arte. Fica muito claro para mim que moda não é arte; ela se inspira na arte; utiliza, isso sim, a arte como um veículo para ela se comunicar com as pessoas e trazer uma conexão.
A moda atravessa comportamento, cultura, economia e identidade. Como você enxerga o papel de quem trabalha com moda na construção de aspectos mais responsáveis e menos superficiais?
Ana Clara Garmendia: Eu acho que o papel de quem trabalha na moda é de uma responsabilidade gigantesca; porque é obrigatório comunicar essa importância e essa responsabilidade; mas não necessariamente a gente vê isso de uma maneira geral. Por esse motivo que a moda acaba muitas vezes ficando muito superficial. Acho que estamos em um momento que não é muito bom para comunicação de moda, por ter muita gente desqualificada falando sobre o assunto, mais pelo interesse no glamour. A responsabilidade é imensa, mas infelizmente tem pouca gente com essa responsabilidade.
Além da carreira em si, qual reflexão você pode deixar para quem está começando agora na área da moda?
Ana Clara Garmendia: A reflexão é sobre a necessidade de não confundir a essência da gente com os personagens que vão entrar em ação quando existe um evento de moda; ou um trabalho de moda em que a gente assume um papel para representar uma revista, no meu caso como jornalista, ou uma marca. Não deixar subir na cabeça esse pseudo poder e o ego tomar conta.
Esse é um mundo muito perigoso; sempre digo que a moda é muito traiçoeira, porque as pessoas ficam muito deslumbradas; então é não perder a consciência, digo a consciência social do mundo em que a gente vive; porque a gente precisa de pessoas mais conscientes, menos deslumbradas para trazer algo mais humano em termos de moda, mesmo dentro do mercado que envolve basicamente a venda em seu caminho; envolve entrega financeira. Acho meio complexo isso.

Em seu livro Verena jogada no chão, a escrita parece partir de estados emocionais intensos e, ao mesmo tempo, cotidianos. Como foi o processo de transformar essas camadas internas em histórias sem suavizá-las?
Ana Clara Garmendia: O livro Verena jogado no chão foi um laboratório; eu queria justamente passar essa intensidade e não tentar mascarar de jeito algum. Foi uma coisa que eu precisava escrever; eu queria escrever; colocar a força desses personagens que são inspirados em fatos e inúmeras mulheres que eu conheci e vivências minhas; e não só minhas, mas de outras mulheres; um livro costurado com a minha imaginação.
Eu queria que ele fosse profundo e foi muito duro para eu o escrever, mas ao mesmo tempo necessário e que eu tive muito prazer também de fazer, porque foi uma obra livre que eu fiz sozinha, editei sozinha, publiquei sozinha, unida a um editor que mora na Argentina. Foi um exercício em que a gente tirou 150, 200 exemplares. Eu sabia que não era para atingir o grande público; muita gente também não iria entender, nem ter paciência de ler. O livro foi essencial para minha carreira, tanto de escritora quanto de mulher. Eu precisava escrever.
Você transita entre moda, pensamento estético e literatura. Como esses aspectos dialogam em você?
Ana Clara Garmendia: A moda seria o meu passado, algo em que eu já acreditei muito e que me fez chegar a ser quem eu sou hoje. Através da moda eu fui saindo da cabeça do Brasil; a moda sempre foi um meio de trabalho, onde eu achava um refresco; porque eu achava que era mais leve trabalhar com moda do que trabalhar com política ou com economia.
O pensamento estético não vem desalinhado disso, porque tudo é estético. Eu aprendi a desmembrar esse pensamento. Quanto mais eu fui conhecendo a moda eu fui aprendendo a desmembrar; e a literatura seria uma base de sobrevivência; porque você poder escrever; você poder ler; isso faz da vida ficar mais interessante, menos fútil; porque você pode debochar disso, ou romantizar, ou ironizar, ou dramatizar. Na literatura tudo é permitido; então acho que é um respiro e uma libertação.
Você vive em Paris há mais de 20 anos. Em que momento a cidade deixou de ser cenário e passou a influenciar diretamente a forma como você pensa, cria e observa o mundo, dentro e fora da moda?

Ana Clara Garmendia: Estou completando 20 anos agora que eu cheguei em Paris. Acho que essa mudança foi acontecendo assim, homeopaticamente; acho que desde 2014 mais ou menos, faz uns 12 anos, eu tive um declick, eu dei uma virada, como se eu tivesse caído dentro de um precipício e conseguido tirar a cabeça para fora e enxergar as camadas sociais.
Paris é uma cidade em que a diferença da sociedade fica muito clara, muito visível, e o francês é muito político e contestador, e eu acabei ficando assim também, pegando essa coisa que eu já tinha; então aqui eu pude ser essa pessoa. Faz uns 12 anos e isso mudou profundamente a maneira de ver tudo, inclusive a moda; hoje eu vejo de uma maneira muito mais crítica, muito mais rude, muito menos romântica e me permitiu também arriscar os meus caminhos como escritora independente, porque eu continuo sendo uma pessoa que não tem editor, que não tem apoio financeiro para publicar e continuo feliz por saber que eu estou podendo fazer isso aqui em Paris. É possível. Eu aprendi que aqui muitas coisas são possíveis e eu achava que antes, no Brasil, não era possível.
O que representam “os links” na sua vida?
Ana Clara Garmendia: Os links são a minha forma de sobrevivência, eu sou alguém que não consegue ficar preso em um alicerce só, eu preciso brincar com outras coisas; acho que profissionalmente eu criei a minha profissão, a minha história como profissional. Comecei fazendo reportagem de TV, depois assessoria de imprensa, fiz rádio, fiz jornal, fiz revista, fiz coluna, fiz entrevista, fiz fotografia.
Na minha vida pessoal eu também sou essa pessoa que faz também esses livros e transita por essa criação. Isso me dá um domínio da vida porque eu não fico parada em um lugar só, eu sei que eu posso me estender para os outros lugares, com uma rede que eu possa entender para passar, e posso viver em várias camadas, em diferentes momentos, situações, eu me adapto, então os links são meus alicerces.
Foi muito bom conversar contigo, algo a mais para complementar?
Ana Clara Garmendia: Eu acho que é importante falar que eu nunca tracei uma meta de vida, nunca tracei vir para Paris, nunca tracei escrever sobre moda ou sobre qualquer outra coisa e sempre fiz tudo com muita dedicação às coisas que eu realizo, sem me achar a última bolacha do pacote. Aliás, eu acho que eu sou uma péssima jornalista.
Mas eu acho que eu sou uma ótima contadora de histórias e isso acabou me trazendo uma certa relevância no trabalho, que é essa capacidade que eu tenho de lidar com coisas cotidianas e trazer isso para dentro de uma realidade que pode parecer irreal, mas na verdade é super real; transformar a realidade em algo fictício e vice-versa. Eu sou meio mágica assim, meio bruxinha com essas coisas. Um beijo.
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