Newsletter Vida de Links #3 – Sobre o propósito humano

Por Manoel Fernandes Neto
Arte colagem Digital: Cris Cirne

A contratação de filósofos e pensadores como colaboradores por grandes empresas de tecnologia já é um assunto comum em feiras e congressos, entre outras ambiências corporativas. O assunto não é necessariamente uma novidade, vem de longe. Começou a pipocar como notícia na época da pandemia, mas o relógio pode voltar um pouco mais, para 2018 ou 2019, ou mais ainda com os chamados evangelistas chefes do Google, que não eram necessariamente filósofos e possuíam outras funções, mas tentavam compreender e refletir publicamente sobre a chegada do futuro.

Hoje multiplica-se exponencialmente a necessidade de reflexão sobre as consequências do advento da Inteligência Artificial, uma nova era de conquistas, mas sem dúvida um campo rico para a investigação de filósofos internos, chamados de Chief Philosophy Officers (CPO). Fui atrás do tema.

Controvérsias e necessidades

Em artigo recente, Christian Voegtlin e Carine Girard-Guerraud, professores da Audencia Business School, na França, procuram explicar o objetivo da nova função, que está longe de ser modismo: “Os filósofos podem ajudar com perguntas sobre qual ética pode estar em jogo e quais parâmetros devem ser aplicados ao programar a inteligência virtual e, em particular, ao projetar como a IA deve interagir com os seres humanos”. (Leia: O que os filósofos podem fazer pelos negócios – Época Negócios | Colunas)

Sobre esses novos colaboradores, Voegtlin e Girard-Guerraud apontam que o mais provável é que sejam recebidos com sentimentos mistos e causem alguma controvérsia.

“Eles terão que fazer suas vozes serem ouvidas em um ambiente que ainda é impulsionado principalmente pelos lucros, e provar o valor e a legitimidade de sua posição dentro da organização. Além disso, eles enfrentam o desafio de traduzir pensamentos filosóficos frequentemente abstratos em ações do mundo real. Isso sempre foi um desafio para os filósofos.”

Provocações, questionamentos e enfrentamentos de líderes para chamadas “jornadas desconfortáveis” podem ocorrer, diz Andrew Taggart, consultor de organizações no Vale do Silício sobre como usar a filosofia de forma prática. “Fazer filosofia como um modo de vida é inerentemente desafiador e pode, às vezes, ser profundamente intrigante (…) Vejo como minha responsabilidade fazer você pensar mais profundamente e com muito mais clareza sobre si mesmo e sobre o mundo.” (Leia: I work therefore I am: why businesses are hiring philosophers | Business to business | The Guardian)

Saúde mental

Pensar nos impactos dos avanços tecnológicos no ambiente empresarial não pode se restringir a empresas de tecnologia, mas a todas as corporações. Qual a área profissional que ainda não foi impactada pelo advento das IAs? Extinções em massa de profissões, novos paradigmas, o “fim está próximo” para quem não se enquadrar. Essas mensagens são assustadores chamamentos para um mundo dominado por uma extensa sensação de caos para o profissional pouco, ou mesmo muito informado. Agentes estão em todos os locais: realizando, substituindo, criando. Impactando na produtividade daqueles que ficam com a respiração em suspenso. Ser ou não ser engolido sem defesa por esse tsunami? Qual o impacto nas pessoas que buscam uma experiência saudável nas empresas?

Marcelo Magdaloni, Managing Director de uma multinacional suíça, amigo fraterno, mantém a newsletter semanal “O poder das Decisões”; na edição #16 “Saúde mental e bem-estar: governança, performance e sustentabilidade” ele apresenta o problema de forma muito clara:

“Saúde mental não é só pauta de RH. É tema de governança, performance e sustentabilidade. Durante muito tempo, saúde mental foi tratada como um assunto individual, quase íntimo. Algo a ser resolvido em silêncio, fora das salas de decisão. Hoje, essa visão não apenas está ultrapassada, ela é perigosa. Burnout, adoecimento emocional e exaustão crônica deixaram de ser problemas pessoais. Eles se tornaram riscos estratégicos, capazes de impactar resultados, reputação, continuidade operacional e valor de mercado. A pergunta que as lideranças precisam se fazer agora não é ‘como cuidar melhor das pessoas?’, mas sim: ‘qual é o custo real de não cuidar?’”

Com sua experiência, cita fatos que não deixam dúvidas sobre a saúde mental dentro das empresas: aumento de afastamentos e turnover qualificado; queda de produtividade e inovação; mais erros operacionais e decisões; desgaste da marca empregadora; risco reputacional quando o tema vem à tona publicamente. Ele levanta a questão: “O futuro pertencerá às empresas que conseguirem equilibrar ambição com humanidade, resultado com cuidado, crescimento com sustentabilidade.”

Propósitos e humanidade

A busca, ou a permanência, do chamado propósito humano não é tarefa fácil em um ambiente tomado por um avanço tecnológico que dá saltos constantes e inevitáveis. Questionamentos comuns como “onde vamos parar?”, “o que nos tornamos e nos tornaremos como pessoas?”; ou mesmo “como entender o outro a partir do advento tecnológico?” e ainda “qual o nosso valor a partir de uma nova realidade?”, podem soar sem sentido quando só são considerados números estratosféricos; fórmulas simplistas; cifras e índices fora do alcance da realidade da grande maioria, que tem a impressão de serem descartáveis.

Filósofos, pensadores que estejam dentro das organizações, não somente nas empresas tecnológicas, é uma necessidade atual e premente. Esses profissionais devem olhar para as empresas além dos ganhos monetários isolados, mas com foco na importância do olhar a partir da inteligência humana, onde capacitações pessoais continuem a ter o mesmo valor que as tecnológicas.

Homogeneização na ciência.

O impacto é geral, no chão de fábrica ou na academia, quando avanços incomensuráveis a partir de Grandes Modelos de Linguagem (LLMs) transformam-se na grande panaceia; mesmo em publicações científicas, desafiando a forma como o conhecimento humano é gerado.

Um artigo instigante de Marcelo Leite na Folha de São Paulo traz o alerta de pesquisadores em relação à pasteurização da ciência com IAs. O texto fala da transparência dos cientistas em artigos para periódicos científicos, homogeneização da comunicação científica com a utilização da IA, bem como estilos de escrita convencionais que ganham “validações institucionais” e abandonam a diversidade na escrita. Leite, jornalista de ciência, rechaça ser chamado de identitário ou ludista:

“Análises de milhares de textos gerados por IA indicam a reificação do modo de pensar e encarar o mundo predominante nas sociedades brancas, educadas, industrializadas, ricas e democráticas (na sigla em inglês, WEIRD, que também significa ‘esquisito’). Se depender dos LLMs, estaria fadada à extinção a incipiente influência de cosmovisões indígenas, por exemplo, nas ciências contemporâneas, não só nas humanas.”

Pensar e agir a partir de si mesmo e para todos, preservando os ecossistemas das empresas, parece um excelente caminho, mas não o suficiente se não incluir efetivamente as pessoas, com todas as suas dores, anseios e dúvidas. Esse é um desafio permanente: fazer emergir o propósito humano na sua essência, em fóruns internos constantes, comunicação interna, palestras e seminários, em um diálogo permanente para que pessoas continuem a ter liberdade para mostrar seu valor, no exercício de pensar e sentir, aspectos em que somos realmente únicos

Sobre a escrita

“Certamente há motivos metodológicos e alguns benefícios para a narrativa empolada, mas nenhum deles é literário, basta pensar que o discurso palavroso é, via de regra, beletrista, intimidante, confuso, intricado e depõe contra o autor.”

 Do livro “O lugar das palavras” de Vanessa Ferrari.

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Colaboradores felizes

“É muito bacana, é muito interessante saber da trajetória de cada um, o que os motiva, suas aspirações e ao mesmo tempo é gratificante ver que são felizes na empresa e o quanto a Galileu participou de suas vidas. Na Galileu, procuramos transcender a relação de apenas capital x trabalho, queremos colaboradores felizes no que fazem e o primeiro passo para isso é trabalhar numa empresa que você admira.”

Luiz Henrique Ferreira, CEO da Galileu Tecnologia, ao responder sobre as trajetórias profissionais de seus colaboradores em ação editorial que traçou o perfil jornalístico de cada um.

Leia: A Galileu quer colaboradores felizes no que fazem, diz Luiz Henrique Ferreira, fundador e diretor da empresa  

Vida de Links é….

“ Minha “vida de links” é inspirada pela conexão entre pessoas e propósitos. O que me move é ver como um “link” (seja uma conexão digital ou um networking presencial) pode transformar uma pequena empresa em uma potência. Inspiro-me em líderes que usam a tecnologia para servir ao humano, e não o contrário. Acredito que o futuro é uma rede onde o conhecimento é compartilhado para que todos cresçam juntos.”

Moacir de Oliveira, fundador e CEO da Certificado Digital Blumenau.  

Certificado Digital Blumenau » e-CPF, e-CNPJ, e_NF 

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Por hoje é isso. Avise seus amigos da Newsletter Vida de Links. Muito em breve estou de volta.

Manoel Fernandes Neto é jornalista, escritor e curador de conteúdo (manoelfernandesneto.com.br ). É colaborador do projeto experimental vidadelinks.com.br e cmm.art.br

 

Links da edição #3 da Vida de Links 

I work therefore I am: why businesses are hiring philosophers | Business to business | The Guardian

O que os filósofos podem fazer pelos negócios – Época Negócios | Colunas

O poder das decisões 

Newsletter #16 – Saúde mental e bem-estar: governança, performance e sustentabilidade | LinkedIn

Inteligência artificial ameaça criatividade científica – 15/03/2026 – Marcelo Leite – Folha 

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A Galileu quer colaboradores felizes no que fazem, diz Luiz Henrique Ferreira, fundador e diretor da empresa 

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