Entrevista a Manoel Fernandes Neto
Bianca Kirschner, fundadora do Portal Conexão Alimentar, começou a viver a realidade das alergias alimentares quando seu filho mais velho, Lucas, teve a primeira reação alérgica aos sete meses de idade. Como acontece com muitas famílias, o início foi marcado por pouco conhecimento e muitas incertezas. Em poucos meses veio o diagnóstico e, com ele, a compreensão de que as alergias alimentares exigem atenção constante, informação de qualidade e cuidados que vão muito além do controle da alimentação.
Com o diagnóstico, Bianca entendeu que a alergia alimentar não impactava apenas Lucas, mas todo o entorno: família, escola, amigos e a rotina cotidiana. A necessidade de aprender, orientar e compartilhar informações tornou-se parte de sua vida. Foi nesse processo — marcado por buscas fragmentadas e conteúdos pouco acessíveis — que nasceu, em 2019, o Portal Conexão Alimentar, criado para reunir informação confiável, experiências reais e apoio a quem convive com restrições alimentares.
Alguns anos depois, a realidade familiar se transformou novamente. Felipe, seu filho mais novo, apresentou sintomas após consumir castanha e também recebeu o diagnóstico de alergia alimentar.
Nesta entrevista, Bianca fala sobre o projeto, sua vida e também reflete sobre os avanços na conscientização no país, o acolhimento entre famílias e a importância de transformar informação em segurança e pertencimento.
“Ao longo desses anos, vejo uma grande evolução na conscientização sobre alergias alimentares no Brasil. Hoje, mais pessoas entendem que não se trata apenas de restringir alimentos, mas de uma condição que afeta escolhas, rotinas e segurança. Já encontramos mais produtos inclusivos, tanto em grandes cidades quanto em municípios menores, e alguns restaurantes e estabelecimentos comerciais têm se mostrado mais preparados, oferecendo opções seguras e com conhecimento sobre alergias.”
Leia a entrevista na íntegra a seguir.
Na sua opinião, o que simboliza o projeto Conexão Alimentar — agora com novo portal — na sua trajetória pessoal e profissional?
Isso significa que ele ainda está vivo. Já conectamos inúmeros alérgicos alimentares, criamos diferentes ações para apoiar a comunidade na inclusão e na conscientização sobre os desafios diários de quem convive com alergias alimentares.
Lançar um novo portal, depois de seis anos, simboliza, para mim, que esse trabalho continua relevante e que ainda gera impacto real na comunidade.
Ao longo desses seis anos de Conexão, como você enxerga a evolução da conscientização sobre alergias alimentares no Brasil?
Ao longo desses anos, vejo uma grande evolução na conscientização sobre alergias alimentares no Brasil. Hoje, mais pessoas entendem que não se trata apenas de restringir alimentos, mas de uma condição que afeta escolhas, rotinas e segurança.
Já encontramos mais produtos inclusivos, tanto em grandes cidades quanto em municípios menores, e alguns restaurantes e estabelecimentos comerciais têm se mostrado mais preparados, oferecendo opções seguras e com conhecimento sobre alergias.
Esses avanços mostram que, aos poucos, experiências individuais se transformam em consciência coletiva, promovendo mais empatia, inclusão e cuidado no dia a dia. Mas ainda assim, a luta continua, em diferentes esferas.

Como essa rede de apoio criada com a participação do Conexão tem transformado o diálogo sobre o tema? Comente.
Sinto que o Conexão Alimentar realmente conseguiu conectar muitas pessoas. Com frequência, vemos colaborações surgindo entre diferentes profissionais e iniciativas que atuam nesse tema, e isso me traz muita alegria.
Um exemplo marcante recente dessa conexão foi a organização do #JUNTOS, que uniu engajadoras sociais sobre o tema de alergias alimentares principalmente para reforçar a importância do Projeto de Lei 85/2024, em tramitação na Câmara dos Deputados, que propõe a inclusão da caneta de adrenalina autoinjetável na lista de medicamentos gratuitos do SUS para o tratamento de anafilaxias.
A iniciativa busca facilitar o acesso a esse dispositivo, essencial para reações alérgicas graves e potencialmente fatais, que ainda não é comercializado no Brasil.
O Conexão Alimentar é também uma história de família. Como essa vivência pessoal influencia, ainda hoje, o conteúdo e o propósito do projeto depois de 6 anos?
Continua influenciando, pois, após a criação do Conexão Alimentar, em 2019, descobrimos que nosso segundo filho — que inicialmente não apresentava alergias alimentares — passou a reagir a pistache e castanha-do-pará. Já o Lucas, que hoje está com quase 15 anos, segue convivendo com alergias alimentares, e seus desafios foram se transformando ao longo do crescimento.
O propósito de conectar famílias e disseminar conhecimento permanece o mesmo. No entanto, os temas abordados evoluíram, ampliando o olhar para outros aspectos dos cuidados e das atenções necessárias a quem vive com alergias alimentares; deixando de focar apenas na primeira infância e passando a acompanhar as diferentes fases da vida, da infância à adolescência e à vida adulta. Além disso, o Conexão Alimentar passou a trazer para a comunidade as evoluções da própria medicina, como os tratamentos ativos, que no início ainda não estavam tão disponíveis.
O Conexão Alimentar nasceu de sua vivência real e hoje se tornou uma referência. Qual você considera o maior impacto do projeto até aqui na vida das famílias com alergias alimentares?
Acho que o maior impacto do Conexão Alimentar foi mostrar para muitas famílias que elas não estão sozinhas. O projeto nasceu de uma vivência real e, ao longo do tempo, criamos uma rede de apoio, trocamos informações que acolhem, orientam e fortalecem quem convive com alergias alimentares.

Receber relatos de famílias que se sentiam perdidas, inseguras ou isoladas e que, por meio do Conexão, passaram a se sentir mais informadas, confiantes e amparadas é o que mais me marca. Mais do que compartilhar conteúdo, o projeto ajudou a dar voz, visibilidade e legitimidade a essas experiências, impactando diretamente a forma como essas famílias enfrentam os desafios do dia a dia.
Cito ainda o 1º Encontro & Conexões sobre Alergias Alimentares, que realizamos presencialmente em São Paulo, em 2023. Foi um momento muito especial, reunindo pais, responsáveis e crianças com alergias alimentares. Ao longo de um dia inteiro, promovemos conexões por meio de painéis com profissionais da saúde, atividades educativas e alimentação inclusiva.
Tivemos relatos emocionantes de pessoas alérgicas que, pela primeira vez, puderam compartilhar uma refeição sem medo, ao lado de outros alérgicos alimentares.
Além de informar, o Conexão tem um papel educativo e de mobilização social. Como o projeto tem trabalhado para aproximar escolas, profissionais de saúde e o poder público dessa causa?
Além de informar, o Conexão Alimentar tem um compromisso educativo e de mobilização social que nasce da própria comunidade. Contamos muito com o apoio das pessoas que convivem com alergias alimentares, porque ninguém melhor do que quem vive esses desafios diariamente para exercer esse papel educativo e social.
O Conexão Alimentar é o que aproxima famílias, escolas, profissionais de saúde e o poder público, oferecendo materiais, informação confiável e apoio em momentos-chave. Muitas vezes, são situações em que as famílias e os próprios alérgicos precisam “arregaçar as mangas” para garantir direitos, promover inclusão e conscientizar a comunidade. Nesses momentos, o Conexão Alimentar oferece suporte, orientação e visibilidade, fortalecendo essas vozes e ajudando a transformar experiências individuais em ações coletivas.
O Conexão Alimentar é também sobre acolhimento e empatia. Como você enxerga o papel da comunicação — especialmente das redes sociais e presença digital — na construção de uma sociedade mais consciente sobre alergias alimentares?
Para mim, a comunicação sempre foi uma forma de cuidado. As redes sociais e a presença digital permitiram compartilhar vivências reais, medos, aprendizados e conquistas — tanto pessoais quanto de outras pessoas.
São muitas as pessoas que convivem com alergias alimentares e acredito que, ao contarmos histórias verdadeiras, a partir de diferentes perspectivas, criamos identificação e empatia. Assim, as pessoas passam a compreender que alergia alimentar não é um detalhe, mas uma condição que impacta escolhas, rotinas e emoções.
O ambiente digital tornou-se um espaço de acolhimento, mas também exige responsabilidade. Por isso, prezamos por uma comunicação consciente, respeitosa e baseada em informação confiável. Muitas famílias chegam ao Conexão Alimentar se sentindo sozinhas e, ao encontrarem conteúdos e experiências semelhantes às suas, percebem que não estão sozinhas.
LINKS DE DESTAQUE:
Conexão Alimentar – Unindo pessoas com alergias alimentares
Bianca Kirschner – Conexão Alimentar

