Por Cris Cirne
Comecei a trabalhar com mídias digitais em 1998. Sim, faz tempo. 🙂 Meu agente de IA já me intitulou como um dinossauro digital. 🙂 O que eu concordo mas nem tanto. O que são “alguns milhares” de anos? Desde o final dos anos noventa já vi algumas tecnologias chegarem acompanhadas daquela sensação de que tudo iria mudar. E, de alguma maneira, mudou mesmo.
Vi a internet comercial crescer, os blogs aparecerem, os sites deixarem de ser novidade, as redes sociais mudarem nossa relação com conteúdo, as ferramentas de criação se tornarem cada vez mais acessíveis e o design sair das mãos de poucos para chegar a praticamente qualquer pessoa com uma tela na frente.
Agora estamos vivendo mais uma dessas mudanças. A inteligência artificial chegou. E chegou rápido, muito rápido. Assustou e impressionou. Talvez nunca tenha sido tão fácil produzir uma imagem bonita, criar um layout, testar uma identidade, escrever um texto ou transformar uma ideia que estava apenas na nossa cabeça em alguma coisa visualmente convincente. Mas tenho me perguntado “convincente” para quem?
Se todo mundo consegue criar, o que acontece com o designer?
James Martin
Li recentemente um artigo do designer britânico James Martin, publicado pela Fast Company, com um título bastante provocador: “Bom gosto não vai salvar os designers da inteligência artificial”.
A discussão me chamou a atenção porque existe uma espécie de movimento defensivo acontecendo entre os profissionais criativos. Se a inteligência artificial consegue executar, então nosso diferencial será o pensamento, o repertório. Ou melhor, nosso último território seguro será o bom gosto.
James Martin levanta justamente essa questão. Para ele, o bom gosto continua importante, claro, mas reconhecer algo bom não significa necessariamente ser capaz de criar algo relevante.
Sinal de um tempo, talvez estejamos mesmo procurando uma resposta confortável para uma mudança que ainda não sabemos exatamente para qual espaço vai nos levar.
Da série, já vi esse filme antes.
Quem trabalha há bastante tempo com digital provavelmente vai entender. Toda grande mudança tecnológica provoca algum tipo de desconforto. Em algum momento, construir um site exigia conhecimentos que poucas pessoas tinham. Depois surgiram ferramentas que facilitaram esse processo. Outras banalizaram de tal forma que todos acharam que poderiam criá-los com qualidade.
Editar uma fotografia já exigiu equipamentos, softwares e conhecimentos bastante específicos. Criar peças gráficas também. Produzir vídeos, editar, diagramar, publicar, distribuir. Pouco a pouco, a tecnologia foi diminuindo a distância entre ter uma ideia e conseguir executá-la.
A inteligência artificial estreitou essa distância brutalmente. Hoje posso escrever algumas linhas descrevendo uma imagem que imaginei e, segundos depois, ela está na minha frente. Às vezes maravilhosa, outras assustadoramente ruim, desconectada da realidade, uma alucinação, para usar um termo da área. 🙂
Ferramentas mudam
E é justamente aqui que acho que existe uma diferença importante entre conseguir fazer e saber o que fazer.
Talvez o valor esteja em outro lugar. Durante muitos anos, dominar determinadas ferramentas era um diferencial profissional enorme. E não estou diminuindo a importância do conhecimento técnico. Conhecer profundamente o próprio ofício muda nossa capacidade de avaliar aquilo que estamos produzindo.
Mas a ferramenta sempre foi um meio. Photoshop é uma ferramenta. Figma é uma ferramenta. Canva é uma ferramenta, assim como o Capcut. Inteligência artificial também é uma ferramenta mesmo que você diga bom dia para ela. :).
Mas as ferramentas mudam. E vão continuar mudando. O problema começa quando confundimos nossa capacidade de operar uma ferramenta com nossa capacidade de pensar. Posso pedir para uma IA criar diversos estudos iniciais de logos, para instigar a criatividade. Ela provavelmente vai realizar. Mas por que escolher alguma dessas ideias específicas, por exemplo? Por que gostei de determinada sugestão? Ou por que é necessário fazer modificações pontuais na tipografia ou na cor? Onde a mensagem da empresa entra na equação? O logo a ser definido dialoga com as pessoas que queremos alcançar? Hoje e no futuro? Vai continuar fazendo sentido quando estiver em um aplicativo, em uma fachada, em um uniforme, em uma embalagem ou no celular? É nesse momento que o design deixa de ser apenas execução.
E o tal do bom gosto?
Concordo com uma parte importante da provocação de James Martin.
Bom gosto não basta. Aliás, “bom gosto” sempre foi um conceito um pouco perigoso. É bom segundo quem? Segundo qual época? Qual cultura? Qual público? Qual contexto? E qual o sentimento?
O que hoje consideramos sofisticado pode parecer completamente ultrapassado daqui a alguns anos. Design não existe isolado do mundo e do tempo. Talvez por isso eu prefira falar em repertório, leitura e intenção. Repertório para conhecer o que já foi feito. Leitura para entender o momento, as pessoas e o contexto. Intenção para saber por que estamos tomando determinada decisão.
E acrescentaria mais um conceito à reflexão do artigo: critério. Porque, se antes tínhamos dificuldade para produzir possibilidades, agora talvez nosso problema seja exatamente o contrário.
Temos possibilidades demais. A IA pode sugerir dez, cinquenta, cem caminhos. Alguém ainda precisa olhar para tudo aquilo e dizer “é este”. E conseguir explicar por quê.
A IA não tira do designer a responsabilidade de escolher e modificar. Talvez ela até aumente essa responsabilidade. Porque gerar ficou fácil. Mas selecionar, dar sentido, construir algo coerente e entender pessoas continua difícil.
Ter coragem para abandonar uma solução visualmente incrível porque ela simplesmente não resolve o problema continua sendo uma decisão humana. James Martin fala sobre a importância de agir sem esperar que exista consenso, de apostar no próprio julgamento antes que todo mundo concorde que aquela escolha é boa. Gosto muito dessa ideia.
Mas penso que existe algo antes da coragem de defender uma escolha. É preciso ter construído critérios para fazer essa escolha. E critérios não aparecem inseridos em um prompt. Eles são construídos, com trabalho, erros, referências, curiosidade. Com projetos que deram certo e outros que deram muito errado e aquilo que vimos, estudamos, ouvimos e experimentamos ao longo da vida.
Futuro do designer
Depois de quase três décadas, continuo aprendendo ferramentas. Comecei no digital em uma época em que muitas das ferramentas que uso hoje não existiam. E ainda estou aprendendo.
Neste momento, inclusive, estou explorando inteligência artificial com a mesma curiosidade com que já explorei tantas outras tecnologias. Não vejo muito sentido em lutar contra uma ferramenta porque ela consegue fazer algo que antes somente eu conseguia, em parte, entregar.
Prefiro entender o que ela pode fazer comigo. Onde acelerar meu processo, ampliar possibilidades, ajudar a experimentar. E também onde preciso dizer “não, isso não está bom. Isso não faz sentido.”
Talvez o futuro do designer esteja menos em proteger aquilo que sabe fazer e mais em ampliar aquilo que sabe pensar. Então a inteligência artificial vai substituir designers? Alguns trabalhos e tarefas certamente vão mudar.
Alguns serviços provavelmente deixarão de existir da maneira como conhecemos hoje, enquanto outros ainda nem sabemos que serão criados. Seria ingenuidade dizer que nada vai acontecer. Mas também acho simplista demais imaginar uma disputa entre “designer versus inteligência artificial”.
Eu não quero competir com uma máquina para descobrir quem consegue gerar uma imagem mais rápido.
Quero continuar fazendo aquilo que me trouxe até aqui desde 1998. Ou seja, observar, experimentar, aprender, questionar e dar forma às ideias.
Só que agora tenho uma ferramenta nova sobre minha mesa de trabalho.
E ela é poderosa.
Essa história de “A inteligência artificial vai substituir os designers?” deve ser corrigida como “Que tipo de designer ainda fará sentido quando criar deixar de ser a parte difícil?”
Ainda não tenho uma resposta definitiva. Talvez nunca tenha. E sinceramente acho ótimo esse desafio. É justamente aí que as coisas começam a ficar interessantes.
Fonte do artigo que inspirou lido em 03/10
https://fastcompanybrasil.com/design/bom-gosto-nao-vai-salvar-designers-inteligencia-artificial/

