Entrevista Marion Rupp, pesquisadora em tingimento natural e criadora da Rion 

Entrevista ao jornalista Manoel Fernandes Neto

Artista plástica e pesquisadora em tingimentos e impressões naturais, Marion Rupp vem se destacando pelo trabalho com tingimento natural em barro e pela forma como transforma técnica, ciência e ancestralidade. Criadora da marca Rion , ela tem impactado o mercado ao unir beleza, sustentabilidade e profundidade conceitual.

No manifesto da marca Rion, a natureza aparece como a “essência da criação” em que cada peça que criada “carrega a sabedoria dos que vieram antes de nós. Inspirados pela ancestralidade, tingimos nossas roupas com o barro que nos conecta e com as plantas que nos nutrem, respeitando os ciclos e rituais que sustentam a vida.”

Em conversa com a Vida de Links, Marion reforça que o tingimento natural é também técnica e experimentação: “mesmo sendo natural, é pura alquimia, ou química natural”.

Foto divulgação: tingimento barro. Acervo Marion Rupp.

Ela se encanta especialmente pelo processo vivo das cores: “Não tem como não se encantar com a cor se revelando. São folhas, cascas, sementes, resíduos e flores que dão azul, vermelho, amarelo, roxo, marrom, preto, etc que têm o poder de se transformarem quando se adiciona outro elemento químico ou se altera o PH. Mas minha grande referência veio da África, vendo vídeos, até bem antigos do Bògòlanfini de Mali.”

Para Marion, a ciência é aliada fundamental: “É ciência pura, pois utiliza a biologia e a química dos próprios materiais que durante o período de cura, criam ligações entre si. A argila tem na sua composição, moléculas que por milhares de anos foram forjadas pelas intempéries, com extremos de calor, frio, ventos, explosões, e cada pedacinho desse nosso planeta tem seu DNA, que resulta em cores diversas.”

A seguir, você confere a entrevista completa e aprofunda o significado da Rion e os pensamentos que guiam o trabalho de Marion Rupp.

Foto: Marisa de Goes. Tingimento barro.

O tingimento natural é, ao mesmo tempo, arte, ciência e ancestralidade. Como começou a sua relação com as cores da natureza e o que te levou a fazer disso um ofício?

Algumas coisas me movem como pessoa:  a curiosidade, o fazer manual, a arte, a imagem,  a justiça, a paixão. Nesse caso, a vida de fotógrafa me fez ver muitas injustiças, não só sociais como também a relação humanidade x natureza. Mas só ver e não fazer nada, não basta. Como estava começando em uma nova profissão, queria fazer diferente. No final de 2015, costurei alguns vestidos infantis para vender.  

Descobri que para não se ter um estoque grande é necessário ter autonomia para estampar os tecidos a qualquer hora, na quantidade desejada e sem desperdício. Então passei a estampar os vestidinhos. Mas a tinta sintética me incomodava, então porque não usar uma tinta natural? Há um bom tempo, já navegava por sites estrangeiros que mostravam como se fazia  o tingimento natural, aí me deu um estalo “é isso que eu preciso fazer!” O que parecia simples se tornou muito complexo. 

Em 2016 praticamente não se encontrava nada de tingimento natural na internet brasileira. Os sites sobre o assunto eram asiáticos, europeus, norte-americanos ou africanos. Nessas pesquisas descobri que as cores vinham acompanhadas da história, de costumes, de descobertas que às vezes também eram muito ruins, como por exemplo aconteceu com a exploração do Pau Brasil, quando os portugueses invadiram o Brasil. No tingimento botânico tive que me aprofundar lendo teses científicas de plantas, pois vão do medicinal ao tóxico, é preciso cuidar.  

O processo de tingimento, mesmo sendo natural, é pura alquimia, ou química natural. Não tem como não se encantar com a cor se revelando. São  folhas, cascas, sementes, resíduos e flores que dão azul, vermelho, amarelo, roxo, marrom, preto, etc que têm o poder de se transformarem quando se adiciona outro elemento químico ou se altera o PH. Mas minha grande referência veio da África, vendo vídeos, até bem antigos do Bogolanfini de Mali. 

Eu me perguntava: como eles conseguiam fixar aquele barro no tecido? Então, após muitas tentativas erradas, em 2017,  consegui fixar a cor do barro, de forma totalmente orgânica. O método que desenvolvi foi diferente do dos africanos. É um tingimento que precisa do sol e é mais demorado ao fazer, produz cores naturalmente estonadas e pode ser misturado a outros tipos de tingimento natural. É ciência pura, pois utiliza a biologia e a química dos próprios materiais que durante o período de cura, criam ligações entre si. A argila tem na sua composição, moléculas que por milhares de anos foram forjadas pelas intempéries, com extremos de calor, frio, ventos, explosões, e cada pedacinho desse nosso planeta tem seu DNA, que resulta em cores diversas. 

Arte Marion Rupp. Tingimento barro natural. Foto: Acervo da artista.

Na tua visão, o que significa resgatar saberes ancestrais em um mundo que valoriza tanto a velocidade e a produção em massa?

É importante preservar os saberes, porque eles são a base. A roda continua sendo a roda, o fio continua sendo feito como há milênios, o mesmo acontece com os tecidos feitos em teares. Tudo que fizeram até agora, com toda a tecnologia disponível foi colocar velocidade, robôs e aprimorar o que já existia muito antes de Cristo.  Então, a base na sua forma mais rudimentar, tem que ser mostrada e preservada, pois é a referência e funciona sem energia elétrica,  petróleo ou computador.  Significa autonomia, assim como ter sementes e saber plantar. 

E tanta velocidade e produção em massa para quê se a indústria da moda é uma das mais poluentes? Faz sentido correr para poluir? Faz sentido extrair petróleo, matar milhares de seres vivos, florestas e mares para depois despejar quilômetros de roupas na própria terra como lixo? Faz sentido consumir alguma coisa que no futuro vai matar nossos filhos e netos? 

Foto: Soninha Vill. Marion Rupp em Exposição no Veras Design, Florianópolis, SC.

A Casa de Saberes Ancestrais, em Dr. Pedrinho, SC, é um espaço de trocas muito especiais. Que tipo de experiências e aprendizados acontecem por lá?

A Casa de Saberes Ancestrais é um ateliê, com uma proposta experimental, onde além de mostrar a cor surgindo e o tingimento acontecendo, dou a possibilidade do visitante ter a experiência de com suas mãos fazer também. Além da cor, a lã de ovelhas exerce uma atração especial, pois aqui se pode ter a experiência de cardar com escovas, fiar com o fuso e a roca e tecer em tear manual, tudo isso com uma pitada de história. 

A marca Rion Terra carrega uma estética profundamente ligada à terra e ao tempo natural das coisas. Como é o teu processo criativo, da colheita à peça pronta?

Cada peça da Rion é trabalhada individualmente. Uma por uma. Penso no que quero fazer, faço um esboço, depois é cortar, costurar, estampar e tingir. Na hora de estampar sempre tenho surpresas porque acabo fazendo diferente do que planejei. Muitas vezes chego nessa etapa com o tecido aberto na minha frente e nem pensei em nada ainda, mas quando pego o pincel e o barro, a coisa acontece, como mágica. 

A maioria das roupas são tingidas com barro, então o tecido precisa ter fibra natural, mas adoro o algodão cru para trabalhar. Tento fazer um design que permite melhor aproveitamento do tecido para não gerar resíduos. Evito usar materiais sintéticos, por exemplo botões de plástico, ou fechamentos com metais, mas nem sempre encontro naturais. 

A ideia é fugir do padrão tendência/moda e passar para identidade pessoal/conforto. 

O que você acredita que as pessoas mais precisam reaprender quando entram em contato com o tingimento natural e com os ciclos da natureza?

O tingimento natural é “slow” é lento porque vai na contramão da quantidade, produção em série e da obsolescência programada. Busca antes de mais nada a continuidade e a transformação. Quando uma roupa desbota, um novo tingimento pode ser feito já que sua base é natural. E mais uma vez é  bom lembrar, que quando essa mesma roupa chegar ao fim, não deixará resíduos tóxicos e será reintegrado à natureza. Por isso não é errado dizer que o futuro é ancestral, pois, já foi assim um dia. Claro, isso só é possível quando o foco pessoal não está voltado para a quantidade e exageros. 

Mas, talvez o mais importante seja o fato de que se começa a observar que na natureza tudo está  interligado, não existe o mais importante nem o melhor. Dos micróbios aos humanos, do sol à terra, todos precisam uns dos outros.  Tudo tem seu tempo e um ciclo complementa o outro. Já nos humanos, viver passou a ser a monetização da vida.  Não  há mais pertencimento nesse ciclo e a triste realidade é a do egoísmo, ganância, da subserviência através do poder. Esse deslocamento talvez jogue a humanidade para fora do planeta e o tingimento natural, assim como outras ações naturais possam voltar a relocar o homem na rota natural do seu ciclo. 

Foto acervo da artista Marion Rupp. Tingimento com barro.

Quais os links metafóricos da sua vida?

A pandemia foi um divisor de águas pra mim, eu finalmente pude viver esse “slow”. Caminhar na natureza sem pressa, parar para pensar e ouvir, também ouvir as palestras de Ana Primavesi, Ailton Krenak, Sidarta Ribeiro entre tantas pessoas fantásticas que também existem. Primeira vez que eu tive consciência do que é viver e o quanto a vida não precisa ser o que me apresentaram desde pequena. 

Links:
Marion Rupp – Instagram
https://www.instagram.com/rion.terra
https://www.instagram.com/casadesaberesancestrais

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