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O Relógio Está Errado

Marcelo Magdaloni

Talvez algumas das melhores oportunidades apareçam justamente quando o roteiro social diz que já passou da hora.

O maior risco de acreditar que ficou tarde demais não é desistir de uma ideia. É parar de enxergar oportunidades que ainda existem.

Na última newsletter, escrevi sobre uma provocação: escalar o passado não é crescer.

Falei sobre empresas que continuam repetindo fórmulas antigas simplesmente porque um dia funcionaram. Hoje quero levar essa reflexão para outro lugar. Para nós mesmos. Porque existe um erro parecido acontecendo com nossas vidas.

A sociedade sempre nos entregou um roteiro pronto… previsível:  Estudar.  Trabalhar. Construir carreira. Casar. Ter filhos. Comprar uma casa.  Chegar ao auge profissional. Aposentar.

O problema é que a vida mudou e o roteiro não acompanhou. Na psicologia existe um conceito chamado relógio social, e posso afirmar que a sua fórmula está um pouco envelhecida!!!

A questão é que cada cultura cria expectativas sobre quando certas coisas “deveriam” acontecer. Casar até determinada idade. Ter filhos em outra. Estar profissionalmente estabelecido aos 40.  Reduzir o ritmo depois dos 50.

Só que esse calendário foi construído para um mundo muito diferente.  Vivemos mais.  Trabalhamos por mais tempo.  Mudamos mais de profissão. Recomeçamos mais vezes.  Criamos negócios mais tarde.  E, ainda assim, muitas pessoas continuam julgando a própria vida com base em um cronograma antigo.

Talvez por isso frases como estas sejam tão comuns:

“Agora já passou.”

“Estou atrasado.”

“Nessa idade já não faz mais sentido.”

Mas talvez o problema não seja estar atrasado.  Talvez seja continuar tentando chegar no horário de um mundo que já não existe. Quando falamos em longevidade, quase sempre pensamos em viver mais anos.

Eu acho essa definição incompleta.   Longevidade deveria significar viver mais e viver melhor as diferentes fases da vida.  Com mais saúde.  Mais autonomia. Mais aprendizado. Mais possibilidade de reinvenção.  Mais espaço para novos capítulos.

Porque uma vida mais longa não precisa significar apenas prolongar o mesmo roteiro.  Pode significar criar outros. Vivemos tempo demais acreditando que a vida tem um único pico.

Uma carreira.  Uma grande fase profissional. Um momento certo para empreender. Um momento certo para mudar. Talvez não seja mais assim. Talvez existam vários picos.  Vários começos.  Várias versões de nós mesmos.  Ainda temos conosco uma imagem muito específica do empreendedor, mas ele também está mudando de idade.

Jovem.

Tecnológico.

Vinte e poucos anos.

Uma garagem.

Uma grande ideia.

Mas os dados contam uma história diferente.

Um estudo amplo realizado com fundadores de empresas nos Estados Unidos mostrou que, entre os negócios de crescimento mais extraordinário, a idade média dos fundadores estava em torno de 45 anos. E um fundador de 50 anos tinha probabilidade significativamente maior de criar uma empresa de alto crescimento do que um de 30. (kellogg.northwestern.edu)

Isso não significa que idade gere sucesso. Mas mostra algo importante:  experiência também é capital empreendedor.  Conhecimento. Rede.  Reputação.  Julgamento.

Capacidade de reconhecer padrões.  Tudo isso se acumula. E, em alguns casos, justamente quando o relógio social diz para desacelerar, a pessoa possui mais recursos do que nunca para começar algo novo… e alguns começaram depois dos 50 anos !!!

Ray Kroc tinha 52 anos quando enxergou no pequeno restaurante dos irmãos McDonald algo muito maior do que um negócio local.  

Taikichiro Mori fundou a empresa que daria origem ao seu império imobiliário aos 51.

Arianna Huffington tinha cerca de 55 anos quando lançou o Huffington Post.

Harland Sanders expandiu o modelo de franquias do KFC já na casa dos 60.

O que essas histórias têm em comum? Nenhuma delas respeitou o relógio social.

E talvez justamente por isso tenham enxergado algo que outros não enxergaram.  Existe outro ponto importante. Nossas carreiras também estão mudando.

Uma pessoa pode passar vinte anos como executiva.

Depois empreender.

Depois atuar em conselho.

Depois ensinar.

Depois investir.

Depois começar outro negócio.

E talvez faça várias dessas coisas ao mesmo tempo.

Mas as carreiras não são mais linhas retas, elas estão deixando de ser uma escada e passando a ser uma sequência de capítulos. E isso muda a nossa relação com a experiência. Em uma carreira linear, a experiência parece passado.

Em uma carreira não linear, a experiência pode virar matéria-prima para o futuro.  Conhecimento acumulado pode virar negócio. Relacionamento pode virar plataforma.

Reputação pode virar acesso.  Problemas vividos podem virar oportunidade.

Talvez existam negócios inteiros escondidos dentro das experiências que as pessoas já acumularam.  Mas existe uma condição …

Experiência, sozinha, não basta.

Porque ela também pode virar rigidez.

Pode virar repetição.

Pode virar apego ao que já funcionou.

E aqui volto à Newsletter #41.

Repetir o roteiro do passado também não é necessariamente viver o futuro.

Assim como as empresas precisam distinguir a essência de formato, as pessoas também precisam fazer isso.

Talvez sua essência permaneça.

Seus valores.

Seu propósito.

Aquilo em que acredita.

Mas o formato pode mudar.

A profissão pode mudar.

O negócio pode mudar.

A forma de trabalhar pode mudar.

A forma de contribuir pode mudar.

E a tecnologia, como a Inteligência Artificial,  amplia ainda mais essa possibilidade.

Hoje, alguém com décadas de experiência pode acessar ferramentas que ampliam pesquisa, criação, análise, comunicação e desenvolvimento de negócios.  Isso cria uma combinação poderosa:

Repertório Acumulado + Tecnologia Exponencial.

E uma nova geração de empreendedores maduros está surgindo justamente daí.

Pessoas que não começam do zero.

Começam com décadas de experiência.

E agora possuem ferramentas capazes de multiplicar essa experiência.

Na última newsletter escrevi que empresas não deveriam escalar o passado, e o mesmo vale para nós.

A vida é longa demais para caber em uma única carreira… longa demais para caber em um único roteiro.

Longevidade não deve significar apenas adicionar anos, e sim, adicionar possibilidades.

Novos capítulos.

Novas contribuições.

Novos começos.

Talvez o futuro pertença menos a quem segue perfeitamente o calendário social, e mais a quem consegue perceber quando chegou a hora de escrever o próprio.

Portanto, antes de dizer:

“Agora é tarde demais.”

Talvez valha fazer outra pergunta:

“Que oportunidade eu não estou enxergando porque aprendi que, na minha idade, já não deveria estar procurando por ela?”

Porque talvez você não esteja atrasado.

Talvez esteja apenas tentando chegar no horário de um mundo que já não existe.

Publicado originalmente
Newsletter #42 – O Relógio Está Errado | LinkedIn

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