A combinação entre realidade virtual e realidade aumentada transformou não apenas a forma de apresentar destinos ou planejar viagens, mas o próprio sentido de viajar, diz Vitória Avelino
Por *Henrique Giacomin, Jornal da USP
O avanço das tecnologias propõe mudanças nos usos e formas de consumo. Quando o assunto é turismo, a quarentena e a impossibilidade de se locomover fisicamente impulsionaram tecnologias que permitiram uma visita “virtual” aos destinos desejados. Segundo Vitória Avelino, doutoranda em Turismo pela Escola de Artes, Ciências e Humanidades (EACH) da Universidade de São Paulo, “a combinação entre Realidade Virtual e Realidade Aumentada transformou não apenas a forma de apresentar destinos ou planejar viagens, mas o próprio sentido de viajar”.
Você já se imaginou caminhando pelas ruas de Roma, admirando o Coliseu construído em 3D, sem sair da sala de casa? Ou visitando Machu Picchu em alta resolução, com sons, vozes e texturas digitais tão realistas que, por um instante, parecem substituir o vento, o cheiro e o peso da altitude? A pergunta parece simples, mas abre uma porta fascinante: o futuro do turismo será virtual?
Pistas do futuro
Pesquisadores tailandeses publicaram em 2024 um estudo que mostra que a imersão em experiências virtuais aumenta significativamente a intenção de visita a destinos reais. Quando o usuário sente prazer, presença e envolvimento emocional, a viagem virtual desperta a vontade da viagem física. Para Vitória, “a realidade virtual serve como convite e a realidade aumentada como expansão da experiência. A primeira faz sonhar antes, a segunda faz ver mais durante. E ambas revelam uma verdade simples: quanto mais perfeita a simulação, mais irresistível se torna o real”.

Destinos como Dubai, Japão e Coreia do Sul vêm usando experiências imersivas com seus visitantes antes mesmo de sua chegada. Um exemplo é o projeto Try Before You Fly, da agência Thomas Cook. No projeto, a empresa usou realidade virtual para permitir que clientes “experimentassem” destinos e cabines de avião antes de comprar viagens, exibindo vídeos 360° em lojas físicas. A ação aumentou o engajamento e as vendas de pacotes turísticos da agência.
Espaços culturais como museus, sítios arqueológicos e centros históricos também utilizam de camadas digitais para reconstruir o passado diante do visitante. Em projetos de interpretação patrimonial, como os realizados em sítios italianos inspirados em Pompeia, a realidade aumentada permite visualizar as estruturas antigas recompostas digitalmente, revelando cores, formas e ambientes perdidos no tempo.
Viagens em risco?
Durante a pandemia de covid, quando os destinos físicos estavam fechados, os meios digitais foram a única forma de visita possível. Todavia, nada indica que o digital seja um substituto da presença real. A realidade virtual se tornou uma alternativa possível, uma válvula emocional, educativa e tecnológica, e um convite à descoberta de novos destinos.
Ainda pelo lado ético e ambiental, substituir certas viagens físicas por experiências virtuais pode ajudar a proteger destinos frágeis. Uma pesquisa publicada na Nature, mostrou que, em ambientes virtuais bem construídos, a presença ecológica, a sensação de estar imerso num ecossistema digital fortalece valores ambientais e normas pessoais que levam a comportamentos responsáveis. Experiências virtuais podem não apenas evitar impactos físicos, mas ativar a consciência ecológica dos turistas. “O turismo virtual pode, paradoxalmente, ajudar a preservar o mundo que o inspira”, completa Vitória.
A realidade virtual e aumentada ainda não superou a presença humana. As novas tecnologias vêm para motivar e aumentar o desejo pela viagem. O futuro do turismo é ampliado: é o encontro entre presença física e imersão digital, entre a tecnologia e a emoção, entre o ver e o sentir.
*Sob supervisão de Cinderela Caldeira e Paulo Capuzzo
Publicado originalmente Jornal da USP

